"E houve um dia em que partiste. E houve uma noite em que não chegaste.
O começo e o fim estiveram sempre a acontecer, confundiam-se. Quando chegavas era para dizer que partias, quando partias era para dizer que voltavas. O tempo não estava do nosso lado. Nós não cabiamos na mesma cidade, no mesmo pais. Tu querias partir mal fosse possivel e logo que foi possivel, passadas tantas eternidades, horas, instantes, no momento previsto fizeste as malas e apanhaste o avião que te levou para o outro lado do mar. Nem me consegui despedir, tu também não, doia demasiado, mais valia zangarmo-nos. Durante muitos dias e muitas noites não sabia o que acontecia. Durante meses tive medo de pegar no telefone, apanhar uma chamada, evitava toda uma zona da cidade, havia carros de uma marca que me punham o coração acelerado. Durante muitas noites transformei-me num fantasma. Continuava com um corpo a percorrer o espaço mas não habitava mais o tempo presente. Adormecer era um horror em que era assaltado por todos os demónios. Do desejo, da angústia, do fim de tudo. Calava-me, guardava tudo comigo porque não tinha palavras, nem ninguém a quem as dizer. Estranhava que me reconhecessem como um humano, arranjar forças para fazer o minimo que esperavam de mim no trabalho. Imaginava o teu corpo a mover-se noutra cidade, a atravessar uma rua, a apanhar um táxi, a meter-se num cinema, próximo de outros corpos de quem eu tentava imaginar a face e nada via. A imaginaçao nunca me serviu de nada. Tudo o que tive tão perto se afastava, as tuas mãos, os teus beijos. Só por vezes te tornavas nitida, em movimento, quando era por acaso. Quando te queria fixar tudo se desfazia. Era inútil todo o meu trabalho, toda a minha vida. E só me espantava de não sofrer mais ainda, como se os nervos do meu sentir estivessem amortecidos, os meus olhos cansados mergulhados numa luz fraca. Houve o dia em que partiste, a noite em que não chegaste, minha amada. O espaço impunha-nos a sua impossibilidade de existirmos em coisas tão simples como a de te ir buscar a casa e sairmos para jantar juntos. A teu lado eu ainda conseguia adormecer. Agora nunca nada seria tão natural como isso. Sem saber, era à distância que nos tinhamos condenado. Desde o começo que me avisaras do fim. Que ias partir, que a tua vida te chamava de outros lados, que não ias continuar ali onde estavas, que ansiavas por outras paragens, outras pessoas, que a palavra pátria não te dizia nada.
Tivemos de nos zangar para não termos de nos despedir."
"Pedro Paixão em Amor portátil"
4 comentários:
Há livros que nos marcam...e este parece não ter sido coincidência!!!
Bjo enorme
se o tivesse lido mais cedo, saberia o que esperar no futuro...lol
nao achas??
bjs
helena vive-se sempre, e sempre mais intensamente o inesperado."Ver para acreditar, acreditamos porque sentimos."
bjs
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